II Círculo de Cultura Digital reúne circenses para avaliar aplicativo de alfabetização inspirado em Paulo Freire

11/06/2026

Artistas, proprietários de circo, jovens e educandos de circos sociais participaram de uma semana de formação on line, experimentação tecnológica e construção coletiva de conhecimentos sobre alfabetização e cultura digital

Durante uma semana de atividades, artistas circenses, proprietários de circo tradicional, jovens e educandos de circos sociais participaram de encontros voltados à experimentação e avaliação da ferramenta educacional, construída a partir dos princípios da Educação Popular de Paulo Freire.

O aplicativo E-Palombando, desenvolvido para apoiar processos de alfabetização de jovens, adultos e idosos circenses, foi o centro das atividades do II Círculo de Cultura Digital: Alfabetização para o Povo do Circo, realizado pela socióloga Ana Cristina Diôgo Gomes de Melo por meio do projeto contemplado no 14º Ceará das Artes, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

Paulo Alves Palhaço de circo tradicional durante a realização do evento destacou: “O que mais me chamou atenção foi a maneira como o aplicativo conversa com a gente. Não parece uma sala de aula tradicional. Parece uma conversa dentro do próprio circo. Os áudios ajudam bastante e o personagem do Palhaço Teco cria uma identificação imediata. A gente se vê ali. Acho que isso facilita muito o aprendizado e desperta a vontade de continuar estudando.”

A proposta dos Círculos de Cultura Digital é criar espaços de diálogo onde os participantes não são apenas usuários da tecnologia, mas também colaboradores no processo de construção do conhecimento. Ao longo da programação on line, os circenses navegaram pelas atividades do aplicativo, realizaram exercícios de leitura e escrita, exploraram recursos de áudio e acessibilidade e compartilharam percepções sobre a utilização da plataforma.

Segundo a coordenação do projeto, a iniciativa busca responder a uma realidade histórica enfrentada por muitas famílias circenses tradicionais. A itinerância característica da vida no circo frequentemente dificulta o acesso regular à escolarização formal, tornando necessárias estratégias educativas que dialoguem com a cultura e com os modos de vida dessas comunidades.

Aplicativo nasce da realidade do povo do circo

Desenvolvido especificamente para o contexto circense, o E-Palombando utiliza palavras geradoras, imagens, narrativas, jogos e atividades inspiradas no cotidiano das famílias de circo. Durante 6 meses 10 circenses experimentaram o Aplicativo.

A proposta pedagógica valoriza elementos como oralidade, memória, cultura popular e experiências de vida, aproximando os processos de alfabetização da realidade concreta dos participantes. Dona Cida Vilar Proprietária de circo tradicional e vencedora do Prêmio Funarte Mestras e Mestres 2026, reflete sobre a proposta do aplicativo:“Eu já participei de muitos projetos voltados para o circo, mas esse me emocionou de um jeito diferente. Quando abri o aplicativo e vi as palavras, as imagens e as histórias do nosso cotidiano, tive a sensação de que alguém finalmente pensou a educação para o povo do circo a partir da nossa realidade. Muitas pessoas da minha geração não tiveram oportunidade de estudar. Hoje, ver uma ferramenta que respeita nossa cultura e nossa forma de viver é motivo de alegria e esperança.”

Sobre o desenvolvimento tecnológico do E-Palombando

O aplicativo E-Palombando foi desenvolvido a partir de uma metodologia colaborativa que integrou educação popular, design de experiência do usuário e tecnologia social. A equipe técnica trabalhou em constante diálogo com a coordenação pedagógica e com os participantes dos círculos de cultura, transformando demandas e sugestões em funcionalidades concretas.

Entre os recursos implementados destacam-se:

  • navegação simplificada para usuários iniciantes;
  • leitura em áudio dos conteúdos;
  • interface visual inspirada na cultura circense;
  • atividades interativas adaptadas para dispositivos móveis;
  • recursos de acessibilidade voltados para jovens, adultos e idosos em processo de alfabetização;
  • integração entre conteúdos de leitura, escrita, memória cultural e cultura digital.

Essa construção coletiva permitiu que o aplicativo se tornasse não apenas uma ferramenta tecnológica, mas também uma experiência educativa alinhada aos princípios da inclusão, da participação popular e da valorização dos saberes tradicionais do povo do circo.

Cristina Diôgo, Socióloga e coordenadora do projeto reflete sobre o aplicativo: “O E-Palombando nasceu da escuta das famílias circenses e da compreensão de que a alfabetização precisa dialogar com os modos de vida dos sujeitos. Inspirados nos princípios da Educação Popular de Paulo Freire, construímos uma proposta que reconhece os circenses como produtores de conhecimento. O II Círculo de Cultura Digital foi fundamental porque permitiu validar o aplicativo junto ao público para o qual ele foi criado, fortalecendo uma metodologia baseada no diálogo, na participação e na valorização dos saberes tradicionais.”

Para Frederico Gregório Desenvolvedor do aplicativo, junto com sua equipe técnica, aponta: “Um dos maiores desafios foi transformar uma proposta pedagógica construída coletivamente em uma experiência digital simples, acessível e intuitiva. Desde o início, nossa preocupação não era apenas desenvolver um aplicativo funcional, mas criar uma ferramenta que pudesse ser utilizada por pessoas com diferentes níveis de escolarização e familiaridade com a tecnologia. Por isso investimos em recursos como navegação simplificada, ícones de fácil compreensão, leitura em áudio e elementos visuais inspirados no universo circense.”

“O processo de desenvolvimento também foi marcado pela escuta permanente dos participantes. Cada teste realizado nos círculos de cultura nos ajudou a compreender melhor como os usuários interagem com a plataforma. A tecnologia foi sendo ajustada a partir das experiências reais dos circenses. Isso faz do E-Palombando um projeto diferente da maioria dos aplicativos educacionais, porque ele foi construído junto com a comunidade que irá utilizá-lo.”


Avaliação aponta forte identificação cultural

Ao final do II Círculo de Cultura Digital, os participantes contribuíram para a construção de um infográfico que reuniu os principais resultados da avaliação do aplicativo.

Os dados revelaram um elevado grau de identificação dos participantes com os conteúdos apresentados. Todos os avaliadores afirmaram reconhecer aspectos da cultura circense nas atividades propostas e destacaram o interesse despertado pelas palavras geradoras utilizadas durante o processo de aprendizagem.

Outro aspecto que chamou atenção foi o papel desempenhado pelos recursos de áudio. A maioria dos participantes avaliou positivamente a clareza das narrações, a compreensão das instruções e a utilidade do áudio para a navegação dentro do aplicativo. Para os participantes com menor domínio da leitura, esse recurso foi considerado essencial para acompanhar as atividades de forma autônoma.

Os indicadores pedagógicos também demonstraram resultados expressivos. Os participantes relataram interesse pelas atividades, envolvimento com os exercícios e facilidade para compreender a proposta educativa apresentada pela plataforma.

Dona Rosenilda proprietária de pequeno circo tradicional fala da sua experiência usando o aplicativo: “Achei muito importante participar dessa avaliação porque nós pudemos dizer o que entendíamos, o que estava fácil e o que ainda precisava melhorar. O aplicativo não fala de uma realidade distante. Ele fala da lona, da viagem, da família, das coisas que fazem parte da nossa vida. Isso ajuda muito quem está começando a aprender a ler e escrever.”


Desafios ajudam a aperfeiçoar a ferramenta

A avaliação também identificou pontos que deverão ser aprimorados nas próximas versões do aplicativo. Entre as dificuldades apontadas estão algumas funções de navegação, o envio de gravações de áudio e atividades relacionadas ao reconhecimento de sílabas por usuários em estágio inicial de alfabetização.

Para a equipe do projeto, esses resultados são importantes porque permitem aperfeiçoar continuamente a ferramenta a partir das experiências concretas dos próprios circenses.

Mais do que avaliar um aplicativo, o II Círculo de Cultura Digital reafirmou a importância da participação popular na construção de tecnologias educacionais comprometidas com a diversidade cultural brasileira.

Clara Alves Artista circense e acrobata aérea comenta:“Eu cresci no circo e sempre vi muitos conhecimentos sendo transmitidos de forma oral. Participar do círculo me fez perceber que esses saberes também podem estar dentro das tecnologias digitais. O aplicativo consegue aproximar educação, cultura e memória. É uma ferramenta que pode ajudar tanto os mais jovens quanto os mais velhos a aprender sem perder suas referências culturais.”


Próximo passo: Etnomatemática do Circo Tradicional de Lona

Encerrada a fase de validação do E-Palombando, a coordenação do projeto já trabalha na próxima etapa da iniciativa: a implantação do módulo Etnomatemática do Circo Tradicional de Lona.

A proposta pretende transformar os conhecimentos utilizados diariamente pelas famílias circenses em conteúdo educativo digital. Medidas, cálculos, geometria, proporções e organização espacial serão abordados a partir das práticas envolvidas na montagem da lona, na instalação dos mastros, na organização das arquibancadas e na preparação do espaço do espetáculo.

O conteúdo está estruturado em dez módulos interativos e deverá integrar futuramente o aplicativo. Para viabilizar essa nova etapa, o projeto busca estabelecer parcerias com universidades, institutos federais, órgãos públicos e instituições ligadas às áreas da educação, cultura e inovação social.

A expectativa é ampliar o alcance da plataforma e fortalecer uma proposta pedagógica que reconhece os circenses não apenas como aprendizes, mas como produtores de conhecimentos construídos ao longo de gerações.

Ao unir alfabetização, cultura digital e saberes tradicionais, o projeto reafirma que a educação pode nascer da própria experiência de vida dos sujeitos e transformar o picadeiro em um espaço de aprendizagem, memória e cidadania.

Guilherme Aguiar outro membro da equipe de desenvolvimento do Aplicativo E-Palombando afirma que “A validação do aplicativo durante o II Círculo de Cultura Digital mostrou que estamos no caminho certo ao desenvolver uma tecnologia construída junto com os próprios circenses. Agora, o desafio é ainda mais instigante: transformar os saberes da Etnomatemática do Circo Tradicional de Lona em experiências digitais interativas, acessíveis e significativas para os usuários.

Quando começamos a estudar os conteúdos que serão incorporados ao aplicativo, percebemos que a matemática está presente em praticamente todas as etapas da vida no circo. Ela aparece na medição do terreno, no cálculo do diâmetro da lona, na altura dos mastros, na distribuição das arquibancadas e até na organização dos deslocamentos. O nosso trabalho será traduzir esses conhecimentos, construídos historicamente pelas famílias circenses, em atividades pedagógicas que respeitem a cultura do circo e valorizem a experiência dos educandos.

Do ponto de vista tecnológico, estamos desenvolvendo soluções que permitam ao usuário aprender fazendo. A proposta é criar animações, desafios interativos, jogos educativos e recursos audiovisuais que simulem situações reais da montagem do circo. Queremos que a pessoa perceba que a matemática não é algo distante da sua realidade, mas um conhecimento que ela já utiliza no cotidiano, muitas vezes sem perceber.

Acredito que essa nova etapa representa um avanço importante para o E-Palombando. Estamos construindo algo que vai além de um aplicativo de alfabetização. Estamos criando uma ferramenta que reconhece os saberes do povo do circo, fortalece sua identidade cultural e demonstra que a tecnologia pode ser uma aliada na preservação e na transmissão desses conhecimentos para as novas gerações.”

Encerrada a etapa de validação do aplicativo E-Palombando, a equipe do projeto volta suas atenções para a construção de novas parcerias capazes de garantir a continuidade e a ampliação da iniciativa. A proposta é mobilizar universidades, institutos federais, grupos de pesquisa, secretarias de educação e cultura, organizações da sociedade civil e instituições comprometidas com a inovação social para apoiar o desenvolvimento dos novos módulos, especialmente o conteúdo dedicado à Etnomatemática do Circo Tradicional de Lona. A expectativa é que essas articulações possibilitem a produção de recursos audiovisuais, animações, pesquisas de campo e novas funcionalidades tecnológicas, fortalecendo o E-Palombando como uma ferramenta de alfabetização, valorização cultural e inclusão digital construída a partir dos saberes e das experiências do povo do circo.

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