Dona Cida Vilar, matriarca do circo cearense, é uma das vencedoras do Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes

Reconhecimento nacional celebra mulheres que fizeram do picadeiro um território de resistência, saber e afeto

23/01/2026
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A Fundação Nacional de Artes (Funarte) anunciou os vencedores da segunda edição do Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes, uma iniciativa que integra o Programa Funarte Memória das Artes e que valoriza trajetórias artísticas de artistas com mais de 60 anos e atuação destacada em suas comunidades. Nesta edição, destinada ao reconhecimento de mestras e mestres das artes visuais, circo, dança, música e teatro, foram selecionados 30 nomes de todo o Brasil — cada um recebendo R$ 100 mil em reconhecimento à sua trajetória de contribuição artística e cultural.

Entre os homenageados deste ano, duas figuras emblemáticas do universo circense nordestino ganharam destaque especial: Dona Cida Vilar, matriarca do circo cearense, e Índia Morena, ícone do circo pernambucano.

Dona Cida Vilar: resistência e liderança embaixo da lona

Mestra Cida Vilar, artista, gestora, uma trabalhadora da cultura que resiste no interior do Ceará, enfrentando os desafios da injustiça climática.

Nascida em Belo Jardim, Pernambuco, Dona Cida Vilar começou sua trajetória no picadeiro ainda na adolescência, aos 13 anos, quando embarcou em um circo itinerante e logo se apaixonou pela vida sob a lona. Ao longo de sua vida, ela se consolidou como uma das figuras mais importantes da gestão circense no Nordeste, especialmente à frente do Circo Fantástico — companhia que tornou referência pela força, delicadeza e resistência cultural.

Seu percurso pessoal e profissional foi marcado por desafios: separou-se do marido e, por muitos anos, cuidou da administração do circo sozinha, criando os filhos e mantendo o legado do espetáculo vivo em meio às dificuldades da vida mambembe. A trajetória de Cida é contada com detalhes no livro Mulheres no Picadeiro, onde recebe um capítulo dedicado à sua história — da menina que saiu de Pernambuco com um circo à liderança que se tornou símbolo de resistência feminina na arte circense.

O reconhecimento da Funarte destaca não apenas sua importância como artista, mas também o valor social e cultural de sua trajetória, que inspirou gerações de circenses e contribuiu para a preservação de saberes tradicionais sob a lona.

Índia Morena: a dama do circo pernambucano recebe destaque nacional

Índia Morena, memória viva do circo pernambucano.

Outra vencedora que chama atenção nesta edição é a icônica Índia Morena, artista pernambucana nascida em Recife em 1943 (Margarida Pereira de Alcântara), cujo nome se tornou sinônimo de ousadia e talento no circo tradicional. Com uma carreira iniciada ainda criança — quando deixou a família para seguir a vida itinerante nos picadeiros — Índia Morena consolidou-se como contorcionista, trapezista voadora, cantora, ginasta e atriz circense.

Conhecida por sua longa trajetória e por integrar diversos circos, inclusive no exterior, Índia Morena também foi homenageada como Patrimônio Vivo de Pernambuco e continua a ser referência para artistas circenses do Brasil. Seu trabalho não apenas encantou plateias, mas também ajudou a fortalecer a tradição circense no Nordeste, elevando o circo popular a espaço de identidade cultural e resistência artística.

Sobre o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes

Criado para valorizar trajetórias de vida dedicadas à arte e à cultura, o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes reconhece pessoas que, ao longo de décadas, atuaram como referências em seus territórios. Para concorrer, as indicações devem ser feitas por terceiros e seguir critérios de notório conhecimento e longa permanência na atividade artística — com ênfase na transmissão de saberes para futuras gerações.

Nesta edição, a iniciativa reforça a importância da diversidade e da descentralização, garantindo representatividade de todos os estados brasileiros e áreas artísticas, inclusive com reservas de recursos para artistas negras, indígenas e pessoas com deficiência.

Com a presença de exemplos como Dona Cida Vilar e Índia Morena, o prêmio confirma sua importância como instrumento de valorização da memória viva das artes brasileiras — especialmente das tradições que florescem sob as lonas dos circos populares.

Livro Mulheres no Picadeiro: arte, gestão, cuidado e memória do circo cearense

O livro Mulheres no Picadeiro: arte, gestão, cuidado e memória do circo cearense, da socióloga Ana Cristina Diôgo Gomes de Melo, é uma obra fundamental para compreender o circo a partir das vozes e experiências das mulheres que sustentam, criam e reinventam a vida sob a lona. Com um olhar sensível, político e comprometido com a memória, a autora constrói uma narrativa que vai além do espetáculo, revelando os bastidores do circo como espaço de trabalho, afeto, resistência e transmissão de saberes.

Entre as trajetórias narradas, a história de Dona Cida Vilar ocupa um lugar de profundo destaque. No livro, ela já é reconhecida e nomeada como Mestra, não apenas por sua longevidade no circo, mas pela dimensão ética, pedagógica e humana de sua atuação. A autora reconhece em Dona Cida uma mulher que soube transformar a própria vida em ensinamento coletivo — uma liderança forjada na prática cotidiana da gestão, do cuidado com a família circense e da defesa do circo tradicional.

A narrativa acompanha o percurso dessa pernambucana que, ainda adolescente, fugiu com um circo, enfrentou o rompimento conjugal e criou seus filhos debaixo da lona, mantendo vivo o sonho, o trabalho e a dignidade em meio às dificuldades da estrada. Com delicadeza e respeito, o texto revela como Dona Cida construiu sua autoridade sem alarde, no gesto firme de quem segura o circo em pé: organizando, acolhendo, decidindo e ensinando pelo exemplo.

Ao reconhecer Dona Cida Vilar como Mestra, o livro antecipa — no campo simbólico e afetivo — o reconhecimento institucional que agora se concretiza com o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes. A obra cumpre, assim, um papel essencial: o de registrar em palavras aquilo que o picadeiro sempre soube — que Dona Cida é memória viva, guardiã de saberes e referência incontornável do circo cearense.

Mulheres no Picadeiro é, portanto, mais do que um livro: é um gesto de justiça histórica, que inscreve as mulheres do circo — e, entre elas, Dona Cida Vilar — no lugar que sempre lhes pertenceu. Sob a lona, na gestão, no cuidado e na memória.

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