“Deixai toda a esperança, vós que entrais”: A despedida de Niède Guidon, guardiã da Serra da Capivara

Em despedida à arqueóloga Niède Guidon, jovens do circo social relembram a expedição que uniu acrobacias e arte rupestre na Serra da Capivara, celebrando o legado de quem fez da arqueologia um ato de resistência.

05/06/2025

Por Ana Cristina Diôgo Gomes de Melo


No alto sertão piauiense, onde a caatinga abriga pedras que contam histórias de mais de 100 mil anos, há uma casa simples. Na entrada, um aviso em italiano, extraído da Divina Comédia de Dante Alighieri, alerta os que chegam: “Lasciate ogni speranza, voi che entrate”. “Deixai toda a esperança, vós que entrais”. É mais que uma metáfora. É um reflexo da dura realidade enfrentada por Niède Guidon, arqueóloga que dedicou sua vida a preservar um dos maiores patrimônios da humanidade: a arte rupestre da Serra da Capivara.

Hoje, o Fazendo a Praça se despede dessa mulher extraordinária, cuja obra transcende a arqueologia. Niède não apenas escavou o solo em busca de vestígios do passado — ela desenterrou verdades que mudaram o entendimento mundial sobre o povoamento das Américas. E inspirou gerações inteiras, inclusive jovens acrobatas do circo social, como vimos na inesquecível Expedição Acrobatas da Serra da Capivara, realizada em 2011.


A arqueóloga que virou mito

Nascida em Jaú (SP), filha de indígena com francês, Niède formou-se em História Natural e doutorou-se em Arqueologia pela Sorbonne. Sua obsessão pela Serra da Capivara começou nos anos 1970, ao ver fotos de pinturas que os moradores chamavam de “coisas de índio velho”. Desde então, fez de tudo: fundou a Fumdham, ergueu museus, criou empregos, lutou contra caçadores e políticos. E venceu, até onde era possível vencer sozinha.

Mas vencer no sertão exige muito mais que competência. Exige esperança… ou a perda dela. Sua luta por recursos virou uma cruzada pessoal. A grandiosa obra do parque, reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade, sofre com abandono, burocracia e a histórica indiferença de Brasília.


Entre acrobacias ancestrais e esperanças esculpidas em pedra

Tive o privilégio de ser recebida por Niède em sua casa, de estar em roda de conversa com ela durante a Expedição Acrobatas da Serra da Capivara — um encontro vibrante entre a juventude do circo social e os mistérios ancestrais das inscrições rupestres. Ali, jovens de projetos como Circo Escola de Ecocidadania, Canoa Criança, Escola Pé de Moleque, Mendes de Fortaleza, Armazém do Circo e o grupo Dupiauí revisitaram a pesquisa da atriz e escritora Alice Viveiros de Castro sob outra perspectiva: a do corpo em movimento.

Na trilha do Boqueirão da Pedra Furada, identificaram figuras humanas que pareciam executar pirâmides, contorções, saltos e malabares. Nas palavras dos próprios participantes, eram “acrobatas da pré-história”. A Serra dialogava com eles — e Niède estava ali, ouvindo.


“Eles viviam sem dinheiro… e nós, por quê não?”

Durante a roda de conversa, Niède nos presenteou com uma fala poderosa. Criticou a lógica do consumo e a estrutura desigual da sociedade contemporânea. “Os povos antigos não tinham dinheiro, viviam em harmonia. Inventamos o dinheiro para criar desigualdades”, disse. Defensora da educação pública de qualidade, denunciou o desmonte das escolas e o empobrecimento cultural do Brasil. Relembrou seu exílio forçado pela ditadura militar e sua volta ao país para defender uma utopia: tornar o sertão um centro de conhecimento e turismo sustentável.


A esperança que ela dizia não ter, ela plantou em nós

A frase de Dante em sua porta não deve ser lida como desilusão, mas como um alerta: preservar a memória e o patrimônio no Brasil é uma guerra. Niède perdeu batalhas, mas venceu a guerra maior: nos ensinou que resistir é construir legado. O espetáculo apresentado no anfiteatro da Pedra Furada, “Acrobatas da Curva do Tempo”, foi uma celebração da arte e a prova viva de que a arqueologia pulsa no presente.

Inspirados por Guidon, os jovens do circo social deixaram seus próprios registros. E como as pinturas nas rochas, também eles disseram, com o corpo e com a alma: “Nós existimos. Nós viemos antes. Nós continuaremos”.


Niède, presente!

Niède Guidon partiu deixando uma herança imaterial incalculável. Entre fósseis, acrobacias e sonhos, ela nos fez olhar para o passado sem perder o futuro de vista.

Enquanto houver quem suba no trapézio com o olhar de uma criança e a coragem de uma arqueóloga, ela continuará viva.


Acesse também a íntegra da palestra de Niède Guidon no canal Juriti: youtube.com/user/canalJuriti

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