Zoalinde: a Voz Negra que Levou o Circo-Teatro ao Ceará e Ecoa no Dia da Consciência Negra

“Zoalinde: a memória que rompeu silêncios, criou caminhos e acendeu o circo-teatro no Nordeste.”

20/11/2025

No Dia da Consciência Negra, o Brasil reafirma a importância de reconhecer, celebrar e reparar a trajetória de pessoas negras que moldaram nossas artes, nossa cultura e nossa história. No universo circense cearense, um desses nomes é incontornável: Zoalinde Pereira Santana, mulher negra, artista completa, gestora, matriarca e pioneira que trouxe para o Ceará a força e a poesia do circo-teatro — e transformou a paisagem cultural de todo o estado.

Zoalinde não foi apenas dona de circo. Ela foi dona de si, dona da própria voz, dona de uma ancestralidade que nunca permitiu que fosse apagada. Nascida em Minas Gerais em 1921, atravessou estradas e fronteiras até chegar ao Ceará com seus filhos e sua coragem. Era conhecida como Rainha do Xangô, e como lembram suas netas, esse título traduzia liderança, espiritualidade e consciência profunda de sua identidade negra.

Seu nome incomodava: não por vaidade, mas por consciência histórica. Zoalinde dizia que o sobrenome “Santana” não combinava com seu nome africano, pois era “nome de senhor”, herdado da escravização. Em suas palavras firmes: “Você é preta, sim. Tá vendo seu cabelo?”
Era desse modo direto, mas amoroso, que ela ensinava às filhas, netas e bisnetas o orgulho da negritude, da história e do corpo preto.

Dona Uiara com o Palhaço Trepinha. Hoje os dois brilham do picadeiro do céu.

Uma artista completa que costurou futuro no picadeiro

A filha de Zoalinde, Uiara Santana, testemunha viva dessa memória, descreve a mãe como uma artista absoluta: “Ela cantava muito. Tinha uma voz muito bonita. No circo, ela chegava e cantava uma música que cativava a cidade, o ‘Presépio Encantado’. Ela cantava em todas as cidades… encantava o público.”

Zoalinde adaptava romances, dramas e clássicos para o picadeiro, levando ao público encenações como Mestiço, Direito de Nascer e A Louca do Jardim. Era diretora, cantora, atriz, figurinista e, sobretudo, autora de um modo de fazer teatro que unia política, emoção e crítica social. Seu circo, misto de arte e cuidado, tornou-se território de afeto: “Todos os artistas reverenciam minha mãe. Houve muitos casamentos no circo dela. Ela era uma matriarca, muito amada.”

Chegar ao Ceará foi um marco. “Tínhamos medo”, conta Uiara, “mas fomos muito bem recebidos. Nas praças, apresentávamos peças teatrais, dramas, maracatus, reisados.” O seu Circo Teatro Uiara transformou o Ceará em palco de narrativas brasileiras, negras, nordestinas — profundamente populares e profundamente potentes.


O legado pelas mãos das netas

A presença de Zoalinde permanece vibrante graças às mulheres que vieram depois dela.
No livro Mulheres no Picadeiro, suas netas/bisnetas Rayara Santana e Louise Santana apresentam a trajetória da bisavó e afirmam que sua memória é “uma força que pulsa viva dentro de si”. Elas contam que Zoalinde era “a liga que unia todo mundo”: filhos, netos, artistas e toda uma comunidade circense.

Rayara lembra com admiração a firmeza amorosa da bisavó, dizendo que tudo que ela falava “virava lei no circo”. Louise e Rayara tornaram-se guardiãs desse patrimônio afetivo e artístico, cuidando dos arquivos, fotos, histórias e da narrativa familiar — garantindo que a luta, o talento e a resistência de Zoalinde jamais sejam apagados.

Uiara, por sua vez, continuou o legado da mãe levando filhas e filhos e netas e netos ao circo, registrando a memória familiar e mantendo viva a tradição do circo-teatro, mesmo após sua mãe ter precisado vender o próprio circo por conta das dificuldades da época.

Hoje, as novas gerações — como Rayara e Louise — seguem palombando as memórias, reinscrevendo no presente o gesto de coragem e criação de Zoalinde.


Consciência Negra: reconhecer a ancestralidade que ergueu o picadeiro

A história de Zoalinde é, por si só, um ato de Consciência Negra.

É a história de uma mulher que recusou a invisibilidade.
De uma artista que rompeu o racismo estrutural com voz, música e dramaturgia.
De uma matriarca que transformou dor em autonomia.
De uma líder que ergueu uma família inteira com arte e dignidade.

O picadeiro cearense — e brasileiro — carrega marcas profundas de sua presença.
A cada peça encenada, a cada drama popular, a cada canto que ecoava sob a lona, Zoalinde reafirmava que a arte negra não apenas existe, como funda e transforma mundos.

Celebrar o Dia da Consciência Negra é também celebrar Zoalinde.
É reconhecer que o circo brasileiro tem raízes negras, vozes negras, gestoras negras, mestras negras — fundamentais e insubstituíveis.
E é saber que esse legado continua vivo nas mãos de Rayara e Louise e de todas as mulheres que herdaram o brilho e a força dessa pioneira.

“Quando uma mulher negra ergue um circo, toda uma ancestralidade se levanta com ela.”

Fotografias: Jacques Antunes

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