Setor circense entrega documento histórico à Ministra da Cultura durante Encontro Nacional de Políticas Públicas para o Circo
Encontro nacional explicita conquistas, desafios e a urgência de ampliar a participação social na construção das políticas para o circo.
23/12/2025
Evento realizado na Escola Nacional de Circo marcou os 50 anos da Funarte e reuniu representantes de todo o país para discutir o futuro das políticas públicas para o circo brasileiro
Rio de Janeiro – Em um momento considerado histórico para o campo das artes circenses, representantes de circos itinerantes, companhias, trupes, artistas independentes, escolas, pesquisadores, festivais e produtoras de todas as regiões do Brasil se reuniram, entre os dias 14 e 16 de dezembro de 2025, na Escola Nacional de Circo Luiz Olimecha, no Rio de Janeiro, para o Encontro Nacional de Políticas Públicas para o Circo. O evento integrou a programação comemorativa dos 50 anos da Fundação Nacional de Artes (Funarte) e culminou na entrega de um documento político unificado à Ministra da Cultura, Margareth Menezes, e à presidenta da Funarte, Maria Marighella.

Resultado de um amplo processo de escuta, articulação e construção coletiva, o documento sistematiza reivindicações históricas do setor circense brasileiro e propõe diretrizes concretas para a consolidação de políticas públicas estruturantes para o circo no âmbito da Política Nacional das Artes (PNA). O texto reafirma o circo como linguagem artística autônoma, modo de vida, campo produtivo e patrimônio cultural profundamente enraizado nos territórios brasileiros, historicamente marginalizado pelas estruturas institucionais do Estado.
Um processo construído coletivamente

A elaboração do documento entregue ao Ministério da Cultura foi precedida por um intenso processo participativo. Nos dias 20 e 21 de novembro de 2025, ocorreram reuniões preparatórias on-line, organizadas por segmentos — circos itinerantes, companhias e artistas independentes, formação, pesquisa, festivais e produtoras. Já no encontro presencial, os debates foram aprofundados e sistematizados por grupos de trabalho compostos por representantes de todas as regiões do país, consolidando um retrato plural e diverso do campo circense brasileiro.
Circos itinerantes: sobrevivência, dignidade e reconhecimento
Um dos eixos centrais do encontro foi a situação dos circos de tradição familiar itinerantes, que representam cerca de mil circos e mais de 50 mil pessoas no Brasil. A chamada Carta Unificada dos Circos Itinerantes apresenta demandas urgentes relacionadas à infraestrutura para itinerância, acesso a terrenos públicos com água, luz e saneamento, desburocratização documental, isenção de taxas e impostos, criação de editais específicos, linhas de crédito e fundos emergenciais para enfrentar os impactos da crise climática, que têm derrubado lonas e comprometido temporadas inteiras.
O documento também reivindica o reconhecimento do circo itinerante como tradição — e não como evento —, a criação de um marco regulatório próprio, políticas de saúde adaptadas à vida em trânsito, garantia do direito à educação para crianças circenses, acesso à EJA e ao ensino superior, além do reconhecimento do circo como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, com políticas efetivas de salvaguarda e memória.
Companhias, trupes e artistas independentes: continuidade e sustentabilidade
Outro bloco fundamental do documento trata das companhias, grupos, trupes e artistas independentes, responsáveis pela pesquisa estética, inovação artística, formação e circulação do circo contemporâneo no Brasil. Com trajetórias que, em muitos casos, ultrapassam três décadas de atuação, esses grupos reivindicam políticas de fomento continuado, editais setorizados, reconhecimento de ações de longo prazo, ampliação de valores de financiamento e adequação regional dos recursos Encontro das politicas publicas….
Entre as propostas apresentadas estão a criação de um MEI Cultural específico para o circo, facilitação do acesso a equipamentos públicos, programas de circulação nacional e internacional, isenção de custos de transporte aéreo para equipamentos circenses e articulação interministerial para garantir acesso à saúde física e mental dos artistas.
Formação em circo: um campo estratégico
A formação ocupou lugar central nos debates. O documento defende o reconhecimento das escolas de circo — fixas, itinerantes, sociais e independentes — como espaços legítimos de formação artística, técnica e profissional. Propõe a reativação de uma Câmara Interministerial entre o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação para a construção de diretrizes nacionais para a formação em circo, incluindo a criação de cursos técnicos, bacharelados e licenciaturas específicos, além do reconhecimento do notório saber de mestres e mestras circenses Encontro das politicas publicas….
Também são apontadas lacunas graves na legislação trabalhista, na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) e nas normas de segurança, defendendo-se a criação de diretrizes específicas para a prática circense e políticas de financiamento plurianuais que garantam estabilidade pedagógica e institucional.
Pesquisa, memória e difusão
O encontro reafirmou o circo como campo legítimo de produção de conhecimento. Entre as propostas estão o fomento à pesquisa acadêmica e independente, a criação de centros de memória e acervos públicos, programas de documentação das trajetórias circenses e a realização de um Censo Nacional do Circo, com inclusão da categoria circense nos levantamentos oficiais do IBGE Encontro das politicas publicas….
No campo da difusão, o documento destaca a importância estratégica de festivais, mostras e circuitos comunitários como instrumentos de formação de público, intercâmbio artístico e desenvolvimento econômico, defendendo calendários previsíveis e políticas de aquisição pública de ingressos.
Participação social e legado dos 50 anos da Funarte
Ao ser entregue à Ministra da Cultura durante as celebrações dos 50 anos da Funarte, o documento assume também um caráter simbólico: reafirma a importância da participação social na formulação das políticas culturais e reivindica a retomada e o fortalecimento de instâncias como o Colegiado Nacional Setorial de Circo, além da criação de mecanismos permanentes de escuta, monitoramento e avaliação das políticas públicas.
Mais do que um conjunto de reivindicações, o texto entregue ao governo federal aponta caminhos concretos para a construção de uma política pública estruturante, continuada e territorialmente sensível. Um passo decisivo para que o circo brasileiro — em suas múltiplas formas, tradições e invenções — ocupe, definitivamente, o lugar que lhe é de direito no Brasil das Artes.

A Lona Jamelão: legado, memória e o cuidado que permanece
Entre debates técnicos, formulações políticas e projeções de futuro, o Encontro Nacional de Políticas Públicas para o Circo foi atravessado por um momento de profunda emoção e densidade simbólica: a inauguração da Lona Jamelão, novo espaço da Escola Nacional de Circo Luiz Olimecha. A cerimônia transformou o encontro em um ato de memória coletiva, reafirmando que as políticas públicas também se constroem a partir do afeto, do reconhecimento e da reparação histórica.

A lona recebeu o nome de Jamelão, figura fundamental da Escola Nacional de Circo, já falecido, lembrado por muitos como o Diamante Negro do Circo Brasileiro. Jamelão dedicou grande parte de sua vida ao cuidado cotidiano da Escola, zelando pela lona, pelos espaços, pelos equipamentos e, sobretudo, pelas pessoas. Seu trabalho, silencioso e constante, sustentou gerações de artistas, estudantes, mestres e trabalhadoras e trabalhadores do circo que passaram pela instituição.
Ao nomear a lona em sua homenagem, a Escola Nacional de Circo e a Funarte não apenas celebram uma trajetória individual, mas afirmam um princípio ético: o circo é feito também por quem cuida, por quem garante as condições materiais e humanas para que a arte aconteça. A Lona Jamelão torna visível um tipo de trabalho historicamente invisibilizado, especialmente quando exercido por trabalhadores negros, reafirmando o circo como espaço de memória, justiça simbólica e pertencimento.
Num grupo de whatsApp que foi criado para dar nome a lona da Escola Nacional de Circo ao Mestre Jamelão e que continua ativo sempre acessando a memória do “Diamante Negro”, ganhou força a reflexão trazida por Maria Gomide, da Cia Carroça de Mamulengos, ao defender que o campo circense — e as políticas culturais — precisam avançar na valorização e no reconhecimento de seus mestres, mestras e trabalhadores ainda em vida. Para ela, homenagens póstumas, embora necessárias, não podem continuar sendo a regra. Reconhecer em vida é um gesto de cuidado, dignidade e responsabilidade coletiva.

A trajetória de Jamelão, agora eternizada na lona que leva seu nome, evidencia essa urgência. Sua história representa tantas outras que sustentam o circo brasileiro longe dos holofotes, mas no centro da existência da arte. Ao transformar seu nome em espaço, o circo transforma memória em presença e legado em política.
A Lona Jamelão passa a existir como símbolo de um circo que honra seus ancestrais, cuida dos seus e reivindica futuro. Um lembrete permanente de que nenhuma política pública será completa se não reconhecer as pessoas que, com trabalho diário e compromisso silencioso, mantêm o picadeiro de pé. Sob essa lona, o circo brasileiro afirma que lembrar é também um ato de luta — e que o cuidado precisa ocupar lugar central nas políticas da cultura.

Quem ficou de fora também importa: a urgência de ampliar a participação no debate das políticas públicas para o circo

A leitura atenta do documento final do Encontro Nacional de Políticas Públicas para o Circo 2025/2026 revela um esforço consistente de organização setorial, com a constituição de grupos de trabalho segmentados — Circos Itinerantes; Trupes, Grupos, Companhias e Artistas Independentes; Formação; Pesquisa; Festivais e Produtoras — reunindo representantes de diferentes regiões do país e trajetórias reconhecidas no campo circense. Essa estrutura garantiu densidade política e técnica às propostas apresentadas à Ministra da Cultura e à Funarte, consolidando um documento robusto e alinhado aos princípios da Política Nacional das Artes.
Ao mesmo tempo, o próprio processo evidenciou limites importantes de representatividade, apontando para a necessidade urgente de ampliar a participação de circenses de todos os segmentos nas próximas etapas de formulação, implementação e monitoramento das políticas públicas. Embora o documento reconheça a centralidade da participação social e defenda mecanismos permanentes de escuta e controle social, muitos agentes do campo — especialmente pesquisadores e pesquisadoras do circo — ficaram de fora dos grupos de trabalho presenciais, apesar de suas trajetórias, produções acadêmicas e contribuições históricas para a consolidação do circo como área legítima de conhecimento.
Essa ausência é sensível, sobretudo porque o próprio documento reafirma a pesquisa como eixo estratégico das políticas públicas para o circo, defendendo o fortalecimento da memória, dos acervos, da documentação das trajetórias circenses e do reconhecimento de metodologias baseadas no saber-fazer, na oralidade e na prática. A exclusão de parte significativa da comunidade de pesquisadores — muitos deles profundamente conectados aos territórios, aos circos de tradição, às escolas, aos projetos sociais e às companhias — representa uma lacuna que, se superada, pode qualificar ainda mais o conteúdo político, conceitual e metodológico do documento.
Ampliar a participação não significa fragilizar o que foi construído, mas aprofundar e democratizar o processo. Significa criar estratégias mais inclusivas de convocação, garantir condições materiais para a presença de agentes de diferentes regiões, fortalecer formatos híbridos e reconhecer que o campo circense é atravessado por múltiplas formas de produção de conhecimento — acadêmicas, empíricas, comunitárias e ancestrais. Como o próprio documento afirma, nenhuma política pública estruturante se sustenta sem escuta ampla, diversidade de vozes e reconhecimento das assimetrias históricas que marcam o setor.
O Encontro Nacional de Políticas Públicas para o Circo representa, assim, um marco fundamental — mas não um ponto de chegada. Seu maior legado talvez seja o de reafirmar que a construção das políticas para o circo brasileiro deve ser contínua, ampliada e radicalmente participativa, incorporando, de forma cada vez mais plural, circenses tradicionais, artistas, formadores, gestores, produtores e pesquisadores. Somente assim será possível consolidar políticas públicas à altura da complexidade, da diversidade e da potência do circo no Brasil.