Jamelão: O Anjo Negro do Circo Brasileiro
Por décadas, o nome de Fidelis Sigmaringa da Silva Nascimento, mais conhecido como Mestre Jamelão, ressoou sob as lonas dos circos brasileiros. Nascido em 1947, na cidade de São Fidélis, no interior do Rio de Janeiro, ele dedicou sua vida ao circo, transformando-se em uma das figuras mais emblemáticas da arte circense no Brasil. Sua partida em 28 de março marcou não um fim, mas o início de uma eternização em memória e corações, coincidentemente no mesmo dia em que uma nova lona era erguida na Escola Nacional de Circo (ENC), no Rio de Janeiro, onde trabalhou e viveu grande parte de sua vida.
02/04/2025
Foto: Mi Murriêta
O Diamante Negro do Circo
A trajetória de Jamelão foi marcada por desafios, superações e um talento extraordinário. Fugindo de casa aos 12 anos para seguir a vida circense, enfrentou barreiras e preconceitos, mas encontrou na arte do faquirismo e na pirofagia um caminho para se destacar. Seu carisma e habilidades lhe garantiram um espaço como artista principal nos picadeiros. Com o tempo, tornou-se também um exímio capataz, reconhecido por sua capacidade de construir e cuidar de aparelhos circenses.
Em 1990, passou a integrar a Escola Nacional de Circo, onde não apenas ensinou, mas também formou gerações de artistas. Mesmo quando ainda não possuía o cargo formal de professor, compartilhava seu conhecimento com alunos e alunas em encontros clandestinos na madrugada, ensinando como ensinava seus próprios filhos. Em 2021, um documentário dirigido por Francisco Gomide, intitulado Jamelão, o Diamante Negro Brasileiro, celebrou sua trajetória e importância para a cultura circense.
O Mestre e seu Legado

A partida de Jamelão trouxe inúmeras homenagens da comunidade circense. Rebeca Queiroz, que esteve ao seu lado nos momentos finais, compartilhou palavras do mestre sobre a morte: “Meu sonho mesmo é morrer em circo, ter um velório meu assim, dentro do picadeiro. E outra coisa, sempre pensei, não quero tristeza no meu enterro. Quero tocando as músicas de circo, alguém jogando malabares, alguém cuspindo fogo. Quero todo mundo contando piada. Não quero nada de tristeza. Isso é muito chato. Se eu não sou triste em vida, por que depois que morro?”
Carlos Sole, professor de circo e responsável pela capatazia do Circo Escola Canoa Criança, relembra a generosidade e sabedoria de Jamelão: “Era uma enciclopédia itinerante. Ele sabia exatamente como trabalhar a flexibilidade respeitando os limites de cada pessoa. Seus ensinamentos não estavam apenas nas técnicas, mas na forma como ele lia cada aluno, percebendo suas dificuldades e necessidades.”
A Funarte também dedicou um espaço especial para homenageá-lo, reconhecendo sua inestimável contribuição para a formação de novas gerações de artistas e para a manutenção da memória do circo brasileiro.
Jamelão e o Circo Social

O impacto de Jamelão não se restringiu às lonas dos grandes circos. No início dos anos 2000, o mestre esteve em Juazeiro do Norte, Ceará, onde ajudou a transformar um projeto ambiental do Instituto de Ecocidadania Juriti em um verdadeiro circo-escola. Durante um mês, Jamelão ensinou jovens e crianças a construir seus próprios aparelhos circenses, formando educadores e artistas que, até hoje, levam adiante seu legado. Josivan Lima, um dos alunos dessa experiência, relembra emocionado: “Passei um mês e 14 dias na casa do mestre na Escola Nacional de Circo. Aprendi sobre capatazia, sobre a vida, sobre o circo. Hoje ele brilha nas alturas, ao lado dos anjos, levando seu espetáculo para a eternidade.”
Seguindo a Tradição do Circo Familiar

Neiva Jamelão
Jamelão garantiu que sua herança circense continuasse através de seus filhos. Desde pequenos, foram treinados pelo pai, e uma em especial, Neiva Jamelão, alcançou reconhecimento internacional, integrando o elenco do Cirque du Soleil. Seu talento e dedicação à família refletem o compromisso do mestre com a perpetuação da arte circense e sua companheira da vida toda Professora Sheila, foi a maior incentivadora da sua trajetória, estando a seu lado até o último suspiro.
Uma Estrela que Seguirá Iluminando os Picadeiros

A história de Jamelão é a de um guerreiro do picadeiro, um mestre da arte e da vida, cuja trajetória continuará inspirando novas gerações de artistas circenses. Sua partida não foi um adeus, mas um até logo, pois seu brilho e ensinamentos permanecerão vivos em cada lona que se erguer, em cada criança que sonhar com o circo e em cada artista que subir ao picadeiro para encantar o público.
Como disse Alice Viveiros de Castro: “Jamelão é mestre e sempre será. Seu nome está cravado na história da Escola Nacional de Circo e no coração de todos que tiveram a honra de conhecê-lo.”
O Anjo Negro do Circo agora brilha entre as estrelas, mas sua luz nunca se apagará.
Mestre Jamelão: Uma Homenagem Necessária na Escola Nacional de Circo

O circo brasileiro carrega consigo uma rica tradição de mestres e mestras que, ao longo das décadas, dedicaram suas vidas à arte, ao ensino e à preservação desse patrimônio cultural. Entre essas figuras icônicas, destaca-se Mestre Jamelão, cuja trajetória marcou gerações de artistas e deixou um legado inestimável para a cultura circense nacional.
Atualmente, um movimento ganha força entre artistas, educadores, pesquisadores e amantes do circo: a campanha para que a lona da Escola Nacional de Circo, situada no Rio de Janeiro e mantida pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), receba oficialmente o nome de Mestre Jamelão. A iniciativa busca não apenas homenagear sua memória, mas também reforçar a importância dos mestres circenses na formação de novos artistas e na continuidade dessa arte milenar.
A Escola Nacional de Circo é um espaço de resistência e fortalecimento das artes circenses no Brasil. Sua lona, epicentro das atividades formativas e apresentações, representa simbolicamente o coração da instituição. Nomeá-la em homenagem a Mestre Jamelão é reconhecer seu papel fundamental na história do circo e garantir que seu legado permaneça vivo para as futuras gerações.
A carta aberta endereçada à presidenta da Funarte já circula entre a comunidade circense, e a adesão tem sido crescente. O documento ressalta a relevância de Mestre Jamelão na arte e educação circense e solicita que a Funarte oficialize a homenagem, garantindo que seu nome esteja eternamente vinculado ao espaço que tanto ajudou a construir.
Para fortalecer essa campanha, os organizadores disponibilizaram um link para a assinatura da carta, permitindo que artistas, estudantes, pesquisadores e todos os que valorizam a cultura circense possam apoiar a causa. O documento será entregue oficialmente à presidenta da Funarte nesta sexta-feira, dia 4 de abril, em um ato simbólico que reafirma a luta pelo reconhecimento dos grandes mestres do circo.
A comunidade circense está convocada a se unir nesse momento crucial. Assinar a carta não é apenas apoiar um nome; é defender a memória, a história e o futuro do circo brasileiro. Juntos, podemos garantir que a lona da Escola Nacional de Circo carregue para sempre o nome de um dos maiores mestres que já passaram por nosso picadeiro: Mestre Jamelão.
Para assinar a carta e fazer parte desse movimento, acesse: https://abre.ai/mskA