Da experiência de Angicos ao E-Palombando: quando a educação popular encontra novas lonas

O método Paulo Freire se reinventando para o povo do Circo através do Projeto Círculo de Cultura Digital

02/12/2025

A experiência de alfabetização de adultos realizada por Paulo Freire em Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963, tornou-se um marco histórico da educação popular no Brasil. Em Angicos, Freire e sua equipe partiram de um princípio revolucionário: ninguém aprende a ler começando pelas letras, mas começando pela vida. Os trabalhadores rurais foram alfabetizados a partir de palavras e situações do seu cotidiano — tijolo, enxada, trabalho, terra, voto — e, a partir dessas palavras, chegaram à escrita, à consciência crítica e ao entendimento de si como sujeitos de direitos.

Mais de sessenta anos depois, esse mesmo princípio continua profundo e necessário — agora sobre outra lona, em outro território simbólico: o circo tradicional brasileiro.

O projeto Círculo de Cultura Digital: Alfabetização para o Povo do Circo,(apoiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará com recursos do XIV Edital Ceará das Artes) que dá origem ao aplicativo E-Palombando, nasce do reencontro entre a pedagogia freiriana e as tecnologias contemporâneas. Assim como Freire sentou-se com camponeses de Angicos para ouvir suas histórias e delas extrair palavras geradoras, a equipe do projeto se reuniu virtualmente com circenses tradicionais para mapear o universo vocabular do circo — lona, picadeiro, praça, palhaço, viagem, tempestade, comunidade, respeito, direito.

Em Angicos, os encontros ocorriam à noite, depois do trabalho na roça; aqui, os encontros acontecem pela internet, porque o trabalho na vida do circo é contínuo, e os educandos não podem se ausentar da rotina intensa de montagem, desmontagem, ensaios e apresentações. O círculo de cultura migrou para o virtual, mas manteve a essência: escutar, dialogar e construir conhecimento com os educandos, nunca para eles.

Assim como o método de Freire utilizava cartazes, slides artesanais e projetores rudimentares, hoje utilizamos telas digitais, ícones, áudios e animações. A tecnologia não substitui a pedagogia — apenas amplia sua potência. O aplicativo E-Palombando funciona como um novo tipo de “projetor freireano”: um instrumento que coloca nas mãos dos circenses a chave para ler, escrever e interpretar o mundo.

Em Angicos, Freire dizia que alfabetizar era “desvelar a realidade para transformá-la”. No nosso projeto, isso significa compreender as dificuldades de “fazer a praça”, a luta por acesso a água, energia, segurança e condições de trabalho — elementos que fazem parte da vida real do povo do circo e que aparecem tanto nas frases geradoras quanto nos exercícios do aplicativo.

O E-Palombando também honra outro traço fundamental da experiência de 1963: a celebração da cultura própria dos educandos. Se Angicos alfabetizou partindo da cultura camponesa, o aplicativo alfabetiza partindo da cultura circense — suas cores, ritmos, vocabulários, desafios e sonhos. Assim, quando o circense abre o aplicativo, ele não encontra um ambiente estranho: ele entra de volta na lona, num espaço que reconhece como seu.

O projeto, assim como Angicos, é fruto de muitas mãos. Naquela época, eram educadores populares e moradores. Agora, é a equipe formada por sociólogos, linguistas, programadores, designers, artistas circenses e educadores populares — todos trabalhando juntos, como caquinhos de vidro que, reorganizados, formam um grande caleidoscópio pedagógico.

Se Angicos inaugurou uma nova forma de alfabetização popular, o E-Palombando inaugura outra: uma alfabetização digital, itinerante, acessível a qualquer circense, em qualquer praça, em qualquer cidade do Brasil. A educação popular continua viva — apenas ganhou novas luzes, novas tintas e novas lonas.

CONHEÇA A HISTÓRIA DO MÉTODO PAULO FREIRE

Em 1963, o educador Paulo Freire desenvolveu em Angicos (Rio Grande do Norte) uma experiência pioneira de alfabetização de jovens e adultos que ficou conhecida como as “40 Horas de Angicos”. A aula inaugural dessa experiência ocorreu em 18 de janeiro de 1963.

A proposta era ousada e inovadora: ensinar a ler e escrever a partir da vida e da fala dos próprios participantes — a famosa ideia freireana de que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. O trabalho foi organizado em círculos de cultura, em encontros noturnos realizados em casas e espaços públicos da cidade.

Cerca de 300 pessoas participaram da iniciativa e, segundo relatos e estudos sobre o caso, a experiência alcançou um nivel inicial de alfabetização em um curto período — por isso a referência às “40 horas” (ou ao conjunto de encontros intensivos que constituíram a experiência). Essas aulas ocorreram ao longo de semanas, com encontros regulares que buscavam relacionar palavras e situações concretas do cotidiano dos trabalhadores e moradoras locais.

Além de alfabetizar, o trabalho em Angicos tinha um propósito político-pedagógico: formar consciência crítica, relacionando a escrita à compreensão dos direitos, da vida coletiva e da cidadania — o que teve impactos concretos na ampliação do acesso ao voto e à participação social dos alfabetizados.

Em síntese: a experiência de Angicos (1963) mostrou que uma alfabetização situada na realidade dos sujeitos, realizada por meio de círculos de cultura e com forte dimensão política, podia acelerar processos de letramento e promover mudanças sociais — sendo até hoje referência central na história da educação popular no Brasil

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