Circo Social e Circo Tradicional: Entre a Tradição e a Resistência, o Corpo-Território da Arte Circense

O que conecta o circo social ao circo tradicional? Como a ancestralidade e a itinerância moldam a arte circense em diferentes contextos? Nesta matéria, exploramos a relação entre esses dois mundos, destacando o conceito de corpo-território e sua importância na construção da identidade circense. Com depoimentos profundamente enraizados na realidade dos picadeiros, traçamos um panorama da tradição, da inovação e da luta pela inclusão. Leia e descubra como o circo segue desafiando a gravidade – e a exclusão social!

04/02/2025

Nos picadeiros do mundo, duas expressões circenses coexistem e se entrelaçam: o Circo Tradicional e o Circo Social. Ambos compartilham a linguagem do risco, da superação e da poesia corporal, mas trilham caminhos distintos em sua relação com a sociedade. O que os conecta, no entanto, vai além da técnica ou da metodologia; é uma herança de corpo-território, onde a cultura se inscreve na pele, nos gestos e na memória dos artistas.

A Tradição como Memória e Resistência

O circo tradicional é a raiz de toda a linguagem circense. Ele se sustenta na transmissão oral e corporal de conhecimentos passados de geração em geração. Famílias inteiras, como a Família Brasil, atravessam o Nordeste levando suas lonas, seus trailers e seus segredos técnicos. Para Mayara Brasil, companheira do jovem malabarista da terceira geração da família Brasil, do Circo Serven Brother, “o picadeiro é um chão sagrado, onde o corpo se transforma em história e identidade. O circo é nosso território, não apenas nossa casa.”

No circo tradicional, os corpos são marcados pelo tempo e pelo ofício. Cada calo, cada cicatriz, cada gesto carrega uma memória ancestral. Essa fisicalidade, resultado da repetição incansável de movimentos, conecta os artistas a uma linhagem de lutadores, saltimbancos e viajantes que resistiram às transformações políticas e sociais mantendo vivo um modo de vida.

O Circo Social como Espaço de Recriação

Enquanto o circo tradicional se ancora na dinâmica familiar e na itinerância, o circo social emerge como uma ferramenta pedagógica e de transformação social. Baseado em metodologias inclusivas, ele usa o circo como um meio de educação popular e desenvolvimento humano.

Rosangela Lima, educadora circense e coordenadora pedagógica do Circo Escola Canoa Criança, afirma que “o circo social é um resgate. Ele dá sentido ao corpo de crianças, adolescentes e jovens que nunca tiveram voz. No malabarismo, na acrobacia, eles encontram um lugar no mundo, um jeito de se expressar sem precisar falar.”

O circo social também se apropria da tradição para recriá-la. Os números clássicos de equilibrismo e palhaçaria são resignificados para acolher corpos historicamente marginalizados. Se no circo tradicional a família transmite saberes, no circo social a comunidade assume esse papel, tornando-se a base de sustentação da arte circense.

A Contribuição do Circo Tradicional para o Circo Social

O circo social, apesar de inovador em sua função pedagógica, se nutre da técnica e da estética do circo tradicional. O domínio corporal, a disciplina e a resiliência são aprendizados herdados das dinastias circenses.

Mestre Pimenta, palhaço, reconhecido como Tesouro Vivo da Cultura do Ceará e hoje formador de crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade, é categórico: “Sem o circo tradicional, não haveria circo social. O que ensinamos aqui vem de um tempo em que não existia lona fixa, quando o picadeiro era a rua e a sobrevivência era um ato de criação. Esse conhecimento é nossa contribuição.”

Além da técnica, o circo tradicional oferece ao circo social um senso de pertencimento. Em um mundo cada vez mais digital e fragmentado, os valores do coletivo, da partilha e do corpo-território circense se tornam ferramentas potentes para a construção de identidades.

Corpo-Território: O Elo Entre os Dois Mundos

O conceito de corpo-território, central para os povos tradicionais e originários, se manifesta no circo de maneira única. Para os artistas circenses, o corpo não é apenas instrumento de trabalho, mas também território de memória, resistência e criação. Esse conceito foi aprofundado por estudiosos como Rogério Haesbaert, que analisa o corpo como espaço de identidade e luta, e por estudiosos dos povos tradicionais como Ailton Krenak, que reforça a relação entre corporeidade e territorialidade.

Essa percepção une circo tradicional e social. Seja em uma lona itinerante ou em um projeto de periferia, o circo é um lugar onde corpos em suspensão desafiam as leis da gravidade e da exclusão social. Como diz Mayara Brasil, “onde houver um corpo brincando com o risco, ali estará o circo.”

Se o circo tradicional nos ensina a preservar e honrar a memória, o circo social nos mostra que essa memória precisa ser acessível a todos. E assim, nos voos e tombos de cada artista, seguimos construindo a história de uma arte que é, antes de tudo, corpo, território e resistência.

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