Circo Itinerante no Enfrentamento da Emergência Climática
Nos meses de outubro e novembro, quatro lonas de circo tombaram no Ceará devido a ventos fortes e chuvas intensas, deixando dezenas de famílias sem espaço para suas apresentações e, consequentemente, sem fonte de sustento.
09/01/2025O circo itinerante sempre foi sinônimo de resistência, cultura e convivência com a natureza. Contudo, nos últimos tempos, tem enfrentado desafios exacerbados pelas mudanças climáticas, que se manifestam de forma dramática no cotidiano dos artistas circenses, especialmente no estado do Ceará.
Nos meses de outubro e novembro, quatro lonas de circo tombaram devido a ventos fortes e chuvas intensas, deixando dezenas de famílias sem espaço para suas apresentações e, consequentemente, sem fonte de sustento. Esses eventos são um reflexo de um problema global: as mudanças climáticas. Mas o que a natureza quer nos avisar com esses incidentes? Como podemos lidar com um clima que se torna cada vez mais imprevisível, principalmente para as populações mais vulneráveis?
As respostas para essas questões estão interligadas ao conceito de justiça climática. Esse termo se refere ao reconhecimento de que as mudanças climáticas afetam de forma desigual as populações mais pobres e vulneráveis, como as comunidades circenses. A justiça climática busca garantir que os impactos dessas mudanças sejam enfrentados de maneira equitativa, com foco nas populações que mais sofrem com a escassez de recursos e a falta de políticas públicas adequadas.
Mas o que é o empoderamento climático e como ele pode ajudar? Empoderamento climático envolve dar às pessoas, especialmente as mais afetadas pelas mudanças climáticas, as ferramentas e o conhecimento para se defenderem e agirem. No caso dos circenses, significa criar redes de apoio, fomentar o conhecimento sobre práticas sustentáveis e fortalecer as ações coletivas. Esse conceito é essencial, pois oferece a chance de as pessoas se tornarem protagonistas na defesa de seus direitos, incluindo o direito a um trabalho digno e seguro, que, para muitos artistas circenses, está diretamente relacionado à possibilidade de se apresentar e manter seu ganha-pão.
Os artistas circenses desempenham um papel crucial na sensibilização de suas plateias sobre a necessidade de cuidar do planeta. Por meio de suas apresentações, eles têm o poder de tocar as pessoas e transmitir mensagens sobre a urgência da ação contra as mudanças climáticas. Ao incorporar temas como sustentabilidade e respeito à natureza em suas performances, os circenses podem educar e mobilizar suas comunidades, convidando todos a refletirem sobre as formas de minimizar o impacto das ações humanas no meio ambiente.
O Estado brasileiro, por meio dos entes federativos — federal, estadual e municipal — tem uma responsabilidade importante nesse cenário. Políticas públicas voltadas para o apoio às vítimas circenses de eventos climáticos extremos são essenciais. O governo pode criar programas de assistência e seguro para artistas circenses, fornecendo apoio imediato em caso de danos às lonas e infraestruturas circenses, além de promover capacitação técnica sobre como lidar com desastres naturais e investir na construção de infraestruturas resilientes que minimizem os danos causados por ventos e chuvas fortes.
A situação dos circenses, embora marcada pela solidariedade entre os profissionais, ainda é extremamente desafiadora. Nos dias atuais, é cada vez mais comum ver anúncios de venda de circos em grupos de WhatsApp. Muitos artistas abandonam sua arte e se tornam retirantes, perambulando pelas cidades, expostos à fome, violência e à ausência de perspectiva de vida. O circo, que antes era uma escola de convivência com a natureza e uma forma de expressão nômade, agora enfrenta dificuldades econômicas e logísticas agravadas pela falta de infraestrutura, como no caso da energia elétrica. A dificuldade em obter energia elétrica adequada para realizar apresentações, muitas vezes resultante da negligência das companhias de energia, representa um obstáculo imenso para a sobrevivência dessas famílias e a continuidade de seus espetáculos.
Historicamente, o circo sempre teve uma relação de adaptação com a natureza, como a prática de captação de água da chuva e a construção de infraestruturas improvisadas para suportar os ventos e as intempéries. No entanto, com a chegada do capitalismo selvagem, o circo foi cada vez mais dependente de grandes fábricas de lonas, cujos preços aumentaram consideravelmente. A lógica do consumo e o distanciamento das práticas ancestrais colocam o circo em uma posição difícil, onde os jovens artistas preferem adquirir lonas prontas a aprender e preservar a prática de confeccionar suas próprias estruturas.
Em resumo, o circo itinerante enfrenta uma emergência não apenas climática, mas também social e econômica. A resposta a esses desafios exige ação conjunta: desde o fortalecimento de políticas públicas que garantam o apoio necessário para o circo, até o fortalecimento da cultura do cuidado com o planeta por meio da arte circense. O caminho é árduo, mas com a união das redes de solidariedade, a ação do poder público e a conscientização da sociedade, podemos garantir que o circo, uma arte tão rica e tradicional, continue sua jornada, preservando sua ancestralidade e seu papel transformador.