Circo brasileiro em movimento: balanço de 2025 e os caminhos que se abrem para 2026
Com editais em disputa, clima extremo e demandas históricas, o circo brasileiro encerra 2025 exigindo respostas estruturais para sobreviver e seguir criando.
29/12/2025
Políticas públicas, crise climática e a urgência de garantir a continuidade da vida sob a lona
O ano de 2025 marcou um período decisivo para o circo brasileiro, com avanços importantes no campo das políticas públicas, ao mesmo tempo em que se aprofundaram desafios históricos e emergentes — especialmente para os circos itinerantes e para a realidade do Nordeste. Entre editais estruturantes, encontros nacionais e o agravamento da crise climática, o setor encerra o ano com conquistas concretas e uma agenda clara de reivindicações para 2026.
Avanços institucionais e fortalecimento das políticas para o circo
Um dos principais marcos de 2025 foi a consolidação de ações federais voltadas especificamente para o circo, com destaque para o Edital Carequinha, que reafirma o reconhecimento do circo como linguagem artística autônoma e modo de vida. O edital representou uma retomada importante da política de circulação, possibilitando que grupos, trupes e circos de lona ampliassem o diálogo com seus públicos em diferentes territórios do país.
Ao lado do Carequinha, programas de ações continuadas e iniciativas estaduais indicaram um movimento de reconstrução institucional após anos de descontinuidade. Ainda assim, o próprio setor reconhece que os valores disponíveis e o número de projetos contemplados permanecem insuficientes frente à dimensão e diversidade do campo circense brasileiro — especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
O Encontro de Políticas Públicas para o Circo e os caminhos para 2026

Realizado ao longo de 2025, o Encontro de Políticas Públicas para o Circo sistematizou um conjunto robusto de proposições construídas coletivamente por representantes de circos itinerantes, grupos, escolas, artistas independentes, produtoras e pesquisadores de todas as regiões do país. O documento final aponta diretrizes estratégicas que orientam o debate para 2026.
Entre os consensos mais fortes está a necessidade de superar a lógica pontual dos editais e consolidar o circo como política pública permanente, com orçamento próprio, previsibilidade e instrumentos adequados às suas especificidades. O texto reafirma a urgência de um marco regulatório próprio para o circo, capaz de reconhecer o circo de tradição familiar, desburocratizar a circulação e garantir condições mínimas para a instalação das lonas nos municípios.
O encontro também destaca o fortalecimento do Edital Carequinha, defendendo sua ampliação, a criação de linhas específicas para manutenção de lonas, compra de equipamentos e circulação regional, além de critérios que assegurem maior equidade territorial.
Crise climática: um desafio que atravessa o picadeiro

Se 2025 trouxe avanços institucionais, também escancarou a vulnerabilidade do circo frente à crise climática. Altas temperaturas, chuvas intensas, ventos fortes, tempestades e longos períodos de seca impactaram diretamente a rotina dos circos, sobretudo no Nordeste. Esses fenômenos afetam desde a durabilidade das lonas até a saúde de artistas, trabalhadores e públicos.
O Encontro de Políticas Públicas incorpora esse tema como eixo transversal e aponta a necessidade de ações emergenciais e estruturantes, como:
- acesso garantido à água potável para hidratação constante;
- medidas de proteção da pele e da saúde frente à exposição prolongada ao sol;
- apoio à adaptação das estruturas circenses aos eventos climáticos extremos;
- criação de políticas intersetoriais que articulem cultura, saúde e meio ambiente.
A urgência de um Fundo para recuperação de lonas

Entre as propostas mais emblemáticas está a criação de um Fundo Emergencial para o Circo, destinado à recuperação de lonas que caem ou são danificadas por eventos climáticos, bem como à aquisição de novas lonas. A ausência desse mecanismo deixa famílias circenses em situação de extrema vulnerabilidade, interrompe temporadas e ameaça a continuidade de um modo de vida historicamente marginalizado.
A proposta do fundo dialoga diretamente com a realidade do Nordeste, onde a itinerância permanece central e os impactos climáticos são cada vez mais severos.
Participação social e diversidade de vozes
Outro ponto central do balanço de 2025 é o reconhecimento dos avanços no diálogo institucional, ao mesmo tempo em que se evidencia a necessidade de ampliar a participação de circenses de todos os segmentos. O documento do encontro aponta que muitos pesquisadores, mestres, mulheres, jovens e representantes de territórios periféricos e do interior ficaram de fora de espaços decisórios, apesar de suas contribuições fundamentais.
Para além dos avanços institucionais, 2025 também foi marcado por iniciativas estruturantes produzidas a partir do próprio campo circense, com destaque para dois trabalhos desenvolvidos pela socióloga Ana Cristina Diôgo. Ao longo do ano, foi escrito o livro Mulheres no Picadeiro: arte, gestão, cuidado e memória, resultado de uma pesquisa dedicada a visibilizar o protagonismo das mulheres no circo brasileiro, reunindo reflexões sobre criação artística, organização do trabalho, práticas de cuidado e preservação da memória circense. Paralelamente, avançou a criação do E-Palombando, aplicativo de alfabetização voltado ao povo do circo, inspirado no método de Paulo Freire e pensado para dialogar com a oralidade e o cotidiano circense. Em 2025, o aplicativo passou a ser experimentado por um grupo piloto de 10 pessoas do circo que não dominam a leitura e a escrita, configurando uma experiência inédita de educação a distância para esse público. A proposta aponta para a construção de um modelo de alfabetização digital que pretende se tornar referência para futuras políticas públicas de EAD, articulando cultura, educação e direitos para populações historicamente excluídas.
Para 2026, a expectativa é o fortalecimento de instâncias permanentes de escuta, fóruns regionais e mecanismos de participação social que garantam representatividade real e contínua.

Perspectivas para 2026
O cenário que se desenha para 2026 é de disputa por consolidação. O circo brasileiro entra no próximo ano com uma agenda clara: ampliar e qualificar os editais existentes, criar fundos emergenciais, incorporar a crise climática às políticas culturais e garantir que a participação social não seja apenas consultiva, mas estruturante.
Mais do que resistir, o circo segue afirmando sua potência cultural, econômica e simbólica. O desafio agora é transformar os avanços de 2025 em políticas duradouras que garantam dignidade, sustentabilidade e futuro para quem vive e faz do picadeiro o seu território.
Que 2026 chegue feito manhã depois da chuva, trazendo sombra boa, água limpa e vento manso pra quem vive de levantar lona e espalhar encanto. Que o sol não queime demais, que a chuva venha no tempo certo e que nenhuma família de circo precise ver seu sonho rasgar no chão.
Que o picadeiro siga firme, mesmo quando a estrada for longa. Que haja cuidado, política justa e pão repartido. Que a arte circense continue sendo abrigo, sustento e alegria nos cantos mais distantes desse Nordeste imenso.
E que, entre tambores, gargalhadas e coragem, o circo siga ensinando ao Brasil que resistir também é uma forma bonita de existir. Que venha 2026 — com esperança, dignidade e a força de quem nunca deixou a lona cair sem lutar.