Circenses de Lona Debatem Desafios Urgentes da Classe trabalhadora de Circo, em Reunião Preparatória Convocada pela Funarte para o Encontro Nacional de Políticas Públicas para o Circo
“Reunião amplia participação da base circense na elaboração das políticas públicas que serão debatidas no Encontro Nacional.”
24/11/2025
A reunião preparatória para o Encontro Nacional dos circos itinerantes, realizada de forma online pela Funarte na manhã do dia 21 de novembro, reuniu mais de 40 circenses de diferentes regiões do país para discutir os principais desafios do segmento e contribuir na construção das futuras políticas públicas para o circo brasileiro. O encontro foi aberto pelo Coordenador de Circo da Funarte, Marcos Teixeira, que emocionou o grupo ao destacar seu profundo vínculo com o circo — mesmo não sendo de família circense. “Bebi água da lona e me considero um circense de coração”, afirmou.
Teixeira ressaltou a importância de a reunião produzir um levantamento abrangente das necessidades da categoria, indo além das questões imediatas. Destacou a relevância de uma “tempestade de ideias” que contemple ações de curto, médio e longo prazo, capazes de serem documentadas e futuramente transformadas em políticas públicas efetivas. Após suas palavras iniciais, o coordenador se retirou da sala virtual, passando a mediação para Fatinha Pontes, com o apoio de Anna Flávia, colaboradora da Funarte.
Data do Encontro Nacional Gera Debate: Fim de Semana Não Atende à Realidade Circense
Um dos primeiros pontos levantados pela categoria foi a inadequação da data do Encontro Nacional de Políticas para o Circo, marcado para um final de semana. Circenses lembraram que este é o período de maior intensidade de trabalho, com sessões lotadas e compromissos inadiáveis que inviabilizam a participação. A classe solicitou formalmente que o evento seja transferido para dias úteis, garantindo a presença ampla e representativa dos profissionais de lona.
Expropriação Cultural: Reclamações Sobre Uso Indevido da Linguagem Circense
Outro tema amplamente discutido foi a expropriação da cultura circense por produtores, empresas e projetos que se apropriam da estética e do nome do circo sem qualquer vínculo com a tradição da lona. Os participantes foram unânimes ao denunciar que essa prática prejudica o reconhecimento da arte circense e desvia recursos e oportunidades de quem realmente vive e preserva essa cultura. A reivindicação é de que políticas públicas considerem mecanismos de proteção e certificação para evitar esse uso indevido.
Terrenos, Licenças e Público Reduzido: Os Obstáculos para “Fazer a Praça”
A dificuldade de acesso a terrenos para montar o circo foi um dos pontos mais recorrentes. Os circenses relatam que, na maioria das cidades, as taxas cobradas são altas, tornando inviável a permanência prolongada — especialmente em praças onde o público é reduzido e a bilheteria não cobre o investimento.
Além disso, a burocracia para obtenção de licenças varia entre municípios e, muitas vezes, torna o processo moroso e custoso. Com a diminuição do público, muitos circos precisam migrar constantemente, aumentando ainda mais a vulnerabilidade econômica da categoria.
Diversidade do Universo Circense: Realidades Diferentes, Desafios Compartilhados
Circenses de diversas regiões reforçaram que a realidade da lona muda conforme o tamanho do circo, as características da cidade e as condições econômicas locais. Apesar dessas diferenças, houve consenso de que essa diversidade é a força do universo circense, e que políticas públicas devem considerar essas especificidades, evitando soluções generalistas que não dialogam com a prática cotidiana.
Emergência Climática e Queda de Lonas: Um Fundo de Mitigação é Urgente
A pauta ambiental também ganhou destaque. Circenses relataram o aumento expressivo de lonas derrubadas por ventos fortes, tempestades e eventos climáticos extremos, realidade que tem colocado famílias em risco e causado prejuízos irreparáveis.
Diante disso, o grupo propôs a criação de um Fundo Circense para Mitigação da Crise Climática, que garanta assistência emergencial, reparação e políticas de justiça climática para esse segmento historicamente vulnerabilizado.
Legislação de Uso do Solo: Fortaleza Como Referência
A legislação sobre uso de solo foi outro ponto discutido. Circenses destacaram que a cidade de Fortaleza, graças à articulação da APAECE, dispõe hoje de uma legislação específica que reconhece e regulamenta a montagem de lonas na capital. A experiência foi apresentada como referência para outras cidades brasileiras.
Reconhecimento da Arte Tradicional
Mesmo diante de tantos desafios, os circenses reforçaram que permanecem firmes na defesa e na continuidade dessa arte milenar. A categoria reivindicou que o circo tradicional itinerante seja reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, garantindo proteção, valorização e políticas permanentes para sua salvaguarda.
Caminhos para Políticas Públicas
A reunião evidenciou que a construção de políticas públicas para o circo itinerante deve ser feita com participação direta dos circenses, respeitando sua diversidade, ouvindo suas necessidades reais e reconhecendo sua força histórica. As contribuições reunidas hoje integram o processo preparatório para o Encontro Nacional e reforçam a urgência de ações contínuas, documentadas e institucionalizadas.
A classe do circo de lona, unida e mobilizada, reafirma sua luta por reconhecimento, dignidade e permanência — garantindo que o brilho da lona siga iluminando gerações.