Índia Morena: A Dama do Circo Pernambucano

"Em Pernambuco, o maior jargão do circo deveria ter como licença poética a repetição do pronome feminino antes de cada apresentação, pois, em seu picadeiro, uma líder se dedica a ele incansavelmente desde os 10 anos de idade: Índia Morena. Registrada como Margarida Pereira de Alcântara, a artista recebeu, em 2006, o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, em reconhecimento ao tempo de trabalho e dedicação à arte circense."

27/02/2025

Cristina Diôgo

Da Infância Difícil ao Brilho nos Picadeiros

Nascida em 13 de julho de 1943, no bairro de Afogados, em Recife, Índia Morena enfrentou dificuldades desde cedo. Filha de Eloy Pereira de Alcântara e Maria das Dores Alcântara, ficou órfã de pai aos nove anos. Ainda menina, aceitou o desafio de participar de um concurso de calouros promovido pelo Circo Democratas, apenas para ganhar um corte de tecido e um par de sapatos. Mesmo vaiada e chamada de “mendiga”, venceu a competição, interpretando Vicente Celestino, Núbia Lafayette e Angela Maria.

Seu nome artístico surgiu da combinação do fenótipo herdado da família paterna com uma homenagem à artista circense Linda Morena, que viu se apresentar quando ainda era muito pequena.

Aos dez anos, foi adotada por Severino Ramos Lisboa, o Palhaço Gameloso, e Maria Tenório Cavalcanti, proprietária do Circo Itaquatiara Real. Diferente de outras histórias de crianças que fugiram com o circo, ela gosta de enfatizar: “Tive uma família muito sincera e honesta que me criou e me liberou”.

Seu percurso é um exemplo do conceito de capital cultural de Pierre Bourdieu, pois evidencia como seus conhecimentos e práticas, apesar de marginalizados pelas estruturas hegemônicas, são formas legítimas de produção e transmissão do saber.

O Mundo Sob a Lona

A partir desse momento, a vida de Índia Morena se tornou itinerante. Conheceu nove países e percorreu quase todo o Brasil. “O circo não tinha fronteira entre os países vizinhos. Tínhamos livre acesso para armar a lona aonde chegávamos”, recorda. Sua trajetória profissional incluiu performances em trapézio voador, escada giratória e contorcionismo, modalide na qual ficou mais conhecida.

Contestadora desde jovem, enfrentava desafios não apenas no picadeiro, mas também na sociedade. “Os meninos me discriminavam porque eu ia para a maré e botava água de ganho, só conseguindo pegar depois que eles saíam”, lembra. Sua coragem e personalidade forte fizeram dela uma defensora dos direitos dos artistas circenses.

A obra de Rogério Haesbaert sobre desterritorialização e reterritorialização se aplica diretamente ao percurso de Índia Morena. Em um contexto de avanço da modernização e do apagamento dos modos de vida tradicionais, ela resiste ao processo de desterritorialização imposto pelo capitalismo e pelas políticas de desenvolvimento que ignoram as identidades culturais locais. Ao manter viva a memória das práticas ancestrais, Índia Morena reafirma o território como um espaço simbólico, onde os conhecimentos tradicionais ainda possuem força e valor.

Um Amor Inabalável Pelo Circo

A paixão pela arte do circo é expressa em uma carta escrita por ela ao picadeiro, ao completar 29 anos de carreira, atualizada em 2023:

“Circo, completa hoje sessenta e seis anos que eu te pertenço. Tu és o meu mundo. Com a tua coberta de náilon ou de pano, mesmo assim és o meu mundo. […] Não me abandone, Circo, pois eu te amo e serei sempre tua. Mil beijos dessa que muito te quer: Índia Morena.”

Desafios das Mulheres no Circo

Primeira mulher a atuar no trapézio voador em Pernambuco, Índia Morena enfrentou preconceitos dentro da própria estrutura circense. Em seus versos, denuncia a desigualdade de gênero no meio:

“Somos mulheres de Circo, mulheres honestas, trabalhadoras e fiéis como somos. […] Mas a corda bamba que eu falo não é aquela que exibimos nas nossas apresentações. Esta é arte. A corda bamba que falo é a falta de escola, falta de lazer para os nossos filhos, sem lar e sem maternidade. Somos heroínas. […] Respeitem nossos direitos! Sabe por quê? Porque somos mulheres de Circo.”

Ailton Krenak, ao discutir a necessidade de adiar o fim do mundo, destaca a importância de manter vivas as cosmologias e os modos de existência dos povos tradicionais. Nesse sentido, Índia Morena se alinha a essa resistência, pois sua trajetória não se resume à conservação do passado, mas à atualização constante das práticas culturais, garantindo sua transmissão às novas gerações. Sua atuação vai além do resgate da cultura oral: ela reivindica o reconhecimento de um Brasil plural, onde a sabedoria popular não seja tratada como folclore, mas como ciência ancestral.

Além das dificuldades sociais e econômicas, Índia Morena viveu um relacionamento abusivo com um circense. Relata que, além das violências físicas e psicológicas, perdeu um filho de seis meses devido às condições precárias de saúde na vida itinerante. “Uma mãe de circo não tem tempo nem condições de ficar levando filho para o médico. Tem que trabalhar.”

Um Legado que Inspira

Hoje, lamenta a escassez de circenses com trajetória similar à sua. “Não vejo mais artistas como eu via. Não vejo novidade alguma nos circos. Nem nos grandes nem nos pequenos”, critica. Segundo a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), atualmente existem apenas 13 trupes itinerantes e sete escolas e projetos de circo social no estado.

Após deixar a vida mambembe, fixou-se na Muribeca dos Guararapes, em uma casa comprometida estruturalmente. Seu sonho é transformar um dos cômodos em um museu para preservar sua história, expondo sua vasta coleção de figurinos, perucas, fotografias e outros objetos.

Mesmo longe dos palcos, sua presença é forte na comunidade. Líder comunitária, criou uma rede de apoio entre as mulheres da vizinhança. “Eu não me aperreio mais com nada. Se faltar 10 tões na minha casa e um quilo de açúcar, mando buscar e vem.”

A dama do circo pernambucano continua inspirando e reivindicando o reconhecimento e a dignidade para os artistas circenses. Seu legado permanece vivo na luta pelas condições de trabalho dignas e na resistência de uma vida dedicada ao picadeiro. Como ela mesma diz, “Eu sou do circo e serei dele até o fim”.

Fotografia: ROBERTA GUIMARÃES

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